A saúde periodontal na mulher

As alterações do ciclo hormonal ao longo da vida da mulher influenciam fortemente sua saúde bucal atuando especialmente nos tecidos periodontais.


Ao longo da vida da mulher, ela passa por diversas fases de flutuações hormonais que, além de interferir no seu sistema reprodutivo, exercem forte influência na cavidade bucal. Puberdade, menstruação, gravidez e menopausa são estágios da vida que influenciam a saúde bucal da mulher e devem ser considerados na abordagem terapêutica da equipe odontológica.

» Puberdade
O ambiente microbiano da cavidade bucal altera-se durante a puberdade. Algumas espécies bacterianas desenvolvem-se na presença de concentrações elevadas de hormônios sexuais e, simultaneamente, a resposta dos tecidos gengivais aos hormônios é aumentada. Também ocorre uma resposta local aumentada da gengiva a resíduos alimentares, depósitos de placa e cálculo, resultando em gengivite.

» Menstruação
As alterações bucais que podem acompanhar a menstruação incluem edema dos tecidos gengivais, ativação de herpes labial, aftas, hemorragia prolongada após cirurgia bucal e inchaço das glândulas salivares. Algumas mulheres apresentam inchaço e sangramento gengival nos dias que antecedem o início do fluxo menstrual, que desaparecem assim que a menstruação se inicia. O edema de glândulas salivares, particularmente da parótida, ocorre ocasionalmente durante a menstruação. Em um padrão relacionado com o ciclo menstrual, algumas mulheres podem apresentar lesões aftosas intrabucais recorrentes e lesões herpéticas que cicatrizam após a menstruação.

» Gravidez
Durante a gravidez, a mulher é exposta a alterações hormonais significativas, uma vez que a placenta produz altas quantidades de estrógeno e progesterona que, por sua vez, afetam os tecidos bucais. A gengivite é um achado comum durante a gravidez, em alguns casos, gengivas podem reagir fortemente às bactérias da placa dentária e formar tumorações, que são chamadas por alguns autores de granulomas gravídicos, são benignos e geralmente indolores. Normalmente desaparecem depois da gravidez, mas se persistirem podem requerer remoção cirúrgica.
Historicamente, pensava-se que a gravidez causasse perda dental, e que o cálcio fosse retirado em quantidades significantes da dentição materna para suprir as necessidades do feto. Entretanto, não existem evidências diretas que sustentem essa crença. O cálcio está presente nos dentes numa forma cristalina estável que o torna indisponível para a circulação sistêmica para suprimento da demanda. Embora não haja perda do cálcio do esqueleto na gravidez, a taxa de turnover e remodelamento ósseo na mulher grávida é duas vezes àquela da mulher não-grávida.
Existem várias manifestações bucais comuns da gravidez, sendo a gengivite a mais prevalente, ocorrendo em 60% a 75% das mulheres grávidas. Alterações gengivais, observáveis a partir do segundo mês de gestação, geralmente ocorrem em associação com a má higiene bucal e com irritantes locais, como a flora bacteriana da placa; alterações hormonais e vasculares associadas à gravidez exageram a resposta inflamatória aos agentes irritantes locais. Porém, mulheres que antes da gravidez não apresentavam gengivites, são improváveis experimentar gengivite quando grávidas.
Mulheres que tomam contraceptivos orais, que imitam a característica hormonal da gravidez por aumentar os níveis de estrógeno e progesterona, também podem experimentar problemas de saúde bucal como maior inflamação gengival causada por uma resposta exagerada à placa bacteriana.


» Bocas saudáveis, bebês saudáveis
Estudos atuais mostram uma relação entre doença periodontal e bebês prematuros e de baixo peso. Qualquer infecção, incluindo a periodontal, é causa de preocupação durante gravidez. Na realidade, mulheres grávidas que têm doença periodontal são sete vezes mais susceptíveis de ter um bebê prematuro e de baixo peso. O provável culpado é uma substância química chamada de prostaglandina, produzida por nosso organismo em resposta a placa bacteriana. São achados altos níveis de prostaglandina em mulheres com doença periodontal severa. Levantamentos epidemiológicos internacionais indicam que pelo menos 23% das mulheres com idade entre 30 e 54 têm periodontite.
Mulheres grávidas que têm doença periodontal devem ter uma supervisão periodontal por um especialista. O segundo trimestre de gestação é o melhor momento para tratamento periodontal minimizando um risco potencial, embora as pesquisas ainda não sejam suficientes para determinar o que acontece quando doença periodontal é tratada durante a gravidez. Portanto, o melhor conselho continua sendo que as mulheres que pretendem engravidar devem fazer uma avaliação periodontal.

» Menopausa
Alterações na cavidade bucal são comumente relatadas por mulheres na menopausa, e incluem desconforto bucal (dor e sensação de queimação) e percepção alterada do paladar. Em alguns casos pode ocorrer uma condição conhecida como gengivostomatite menopausal, marcada por gengiva seca e brilhante que sangra facilmente, e fluxo salivar reduzido.
A osteoporose é uma condição comum nos idosos que acomete de maneira desproporcional as mulheres. Perda óssea generalizada causada pela osteoporose sistêmica pode tornar os dentes susceptíveis à reabsorção óssea alveolar acelerada e periodontite crônica. Um estudo recente mostrou que a osteoporose provoca perda óssea mandibular, doença periodontal e perdas dentárias em mulheres após a menopausa; ademais, observou que a terapia hormonal com estrogênio protege não só contra a perda óssea sistêmica, mas também contra a perda dentária. Embora a osteoporose não seja um fator etiológico na periodontite, ela pode afetar a gravidade da doença em periodontites preexistentes.

» Conclusão
Como a condição de saúde bucal da mulher é continuamente modelada por fatores hormonais que oscilam ao longo da sua vida, torna-se necessário uma atenção singular em relação aos cuidados pessoais de higiene bucal e controle das condições periodontais para manter a saúde feminina. Especialmente para as mulheres grávidas, a atenção com a saúde bucal representa não só um cuidado com si própria quanto para seu bebê que está por nascer.

» Referências
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